Sobre a minha culpa, cê sabe?
Eu quero te amar.
Está chovendo, é madrugada e eu não paro de pensar em como eu amo a chuva. Ela faz barulho lá fora, eu não a vejo. Ela chora ou ri? Mesmo se eu me levantar e olhar pela porta (talvez pela janela), eu ainda vou perguntar: ela chora ou ri? Se você souber, me mande uma carta.
Estou tentando começar uma carta, mas não sei falar seu nome. Penso em chamar no diminutivo, acho bonito, mas você é grande demais pra isso. Nem sempre, você sabe. Nem sempre. Eu consigo te guardar em meus braços curtos, te segurar em minhas mãos fracas e calejadas. Mas não quero que sinta minha dor. Só que eu não sei usar luvas com você. Aquelas luvas de lã, sabe? Eu sei mostrar minhas mãos nuas, mesmo achando-as cansavelmente machucadas. Há bolhas por toda parte, mas eu logo digo: “não se preocupe, eu me queimei porque quis. Sempre soube que a vida estava quente. Me queimei porque quis.” E você chora sobre as bolhas, beijando-as com delicadeza. Eu choro sobre ti, horrorizada por você tentar me salvar de mim. E um pintor não pinta nossa dor, mas poderia, poderia, poderia… Seria um quadro lindo.
Eu queria ver seu sorriso de perto. Queria ver seus olhos. Queria me encontrar no fundinho deles, linda como você me vê. Queria escutar seu riso rosa, mexer nos nós dos seus cabelos e ver em cada cicatriz sua, uma personagem. Queria ver sua nudez em preto e branco, num cinema mudo, para logo depois, mudar de década e me entupir de sua voz em cores.
Há alguma coisa sobre a falta de fé…
Queria te ensinar a rezar. Rezar qualquer coisa, para você ter alguma esperança. Queria te dar algum deus, te oferecer algum santo, te mostrar como se faz promessa. Mas eu sou tão dispersa quanto a isso. Se é que me entende.
Depois da lua, há outra lua. Ela só tem um descanso num período pequeno e manso. Se eu soubesse alguma coisa sobre luas e estrelas, eu te explicaria sobre a fase que não podemos vê-la. Mas tenho outra coisa para lhe falar, já que meu conhecimento científico é escasso. Em três de suas fases, a lua encontra a lagoa. Durante esses três tempos elas só compartilham histórias. Passam horas contando as histórias que contaram para elas. Veja bem. Elas passam as horas que tem, repetindo histórias que ouviram. Não falam sobre opiniões, não compartilham ideias. Só histórias. Já pensou nisso? E tantos outros ficam fantasiando o amor da lua pela lagoa, sem saber que o encontro delas é contar histórias. Não que isso não seja amor. Quem sou eu pra falar o que é amor? Mas veja bem, não é curioso? Espetacular? Eu fico boba quando ouço sobre a lua.
E sobre o que mais? Eu tenho uma porção de coisas para te falar. Mas eu queria mesmo levar essas coisas na mochila, tirá-las e colocá-las nas mãos, para que você veja muito bem tudo. Quero ver seu sorriso surpreso, seus olhos brilhando como na infância de dois anos. Talvez eu pareça um pouco exigente, mas não é isso. Eu só quero te sentir mais perto. Sua beleza me invade de longe, você sabe? Eu quero de perto também. Você deve ter cheiro de que?
Ah, e antes que eu me esqueça. Falei sobre amar. Eu quero te amar, eu disse. Eu repito timidamente, mas bem descaradamente. Repito séria, e sorrio. Se eu disser baixinho, você vai corar. Eu quero te amar, sem dizer que te amo.
Se você perceber o amor em mim, me conte para eu sorrir.
—
porque no nosso egoísmo, o nosso amor é mais bonito que o dos outros. e mais feio também.
e mais sujo.
Pra você, Clara, um beijo da lua.
(da minha ousadia de achar que posso ser lua - vez em quando)
ps: quando eu digo “você sabe”, espero não te sobrecarregar muito achando que você deve saber. se é que me entende.
(via
rosasguardadas)